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| Foto: Deyver Dias |
Felipe Simões Pires*
Enquanto o Movimento Tradicionalista Gaúcho discute a beleza em seus concursos, proíbe o uso de boina ou define por decreto quantos milímetros uma peça de roupa pode ter para ser gaúcha, a verdadeira cultura gaúcha morre aos poucos. Essas discussões ridículas no centro das atenções são sintomáticas do que está acontecendo: ou o MTG se reinventa ou vai matar o gaúcho rio-grandense.
No último fim-de-semana, os principais jornais do Rio Grande estamparam notícias sobre a importantíssima discussão dentro do MTG, se a beleza como critério de escolha da primeira-prenda deveria ser abolida. Para a maioria dos rio-grandenses, trata-se da falta do que fazer de alguns extra-terrestres e que nada tem a ver com a vida deles.
Por causa deste rapto do gauchismo que ser gaúcho, hoje, tornou-se um capricho de gente de classe média ou alta que pouco se identifica com os valores gaúchos tradicionais, mas que no fim-de-semana se fantasia conforme o MTG manda e sabe de cor meia-dúzia de coisas de pouca utilidade. A maioria absoluta da população rio-grandense pensa que gaúcho é quem nasce no Rio Grande do Sul.
Devido ao seu engajamento político a favor dos vencedores, o MTG tenta esconder a todo custo nossa origem platina, que é justamente o que nos faz diferentes. Tem problema com a boina e com o chiripá (e com a camisa de manga curta e com o lenço de outra cor etc.), mas parece não estar nem um pouco preocupado com o fato de o rio-grandense ser cada vez menos gaúcho, de nossas festas tradicionais serem substituídas pelas brasileiras, de o gaúcho rio-grandense não saber que não é o único no mundo e de quase todos os habitantes do Rio Grande não estarem nem um pouco interessados em participar do clubinho dos donos do gauchismo.
Se o MTG realmente tiver interesse em proteger as tradições do Rio Grande precisa reinventar-se já. Precisa apresentar a história gaúcha sob o ponto-de-vista do pangauchismo (o surgimento, a evolução e a influência mútua dos gaúchos no Rio Grande, no Uruguai, na Argentina e nas regiões lindeiras), precisa ver o gaúcho como uma etnia viva - e não como um ser do passado - e precisa abrir o seu clubinho a todas as classes e grupos do Rio Grande. Se não fizer assim, como faz a ONG RS Livre (www.rslivre.com), o próprio MTG cravará a adaga que matará o gaúcho.
*Filológo pela Universidade Livre de Berlim
Ótima visão senhor Luiz Souza. A nossa cultura infelizmente tem muita semelhança com o livro escrito por Margaret Mitchell ?E o Vento Levou?.
Gradativamente estão destruindo e pondo a culpa no MTG e nas classes média e alta.
O maior símbolo do gaúcho, o cavalo, o qual é abandonado nas ruas de nossa cidade como sacos de lixos. Que não venha outro incauto por a culpa nas pessoas erradas. Em recente reportagem, este jornal mostrou equinos agonizando após um longo tempo de trabalho prestado.
No que tange aos usuários dos cavalos o julgamento fica ao critério de cada um.
Agapito Costa 06-08-2012 - 14h47min
Belos discursos... mas o povo tem que manter sua cultura, sua tradição. Alguém tem que assumir isto para que a identidade do tradicionalismo gaúcho não se perca... o problema é que ninguém está interessado no cultivo tradicionalista... cada um com seu umbigo, com sua cultura própria, com suas "alpargatas" e músicas misturadas com ritmos de outras regiões do Brasil, que se dizem do RS, gaúchesca. Olhem para isso. quem é gaúcho sabe o que é ser tradicionalista.
Luiz Souza 04-08-2012 - 17h28min
Quem pode trazer para si a prerrogativa de definir ou decidir quem é ou o que é um Gaúcho? Será que a definição baseada apenas no homem campeiro do Sul de nosso continente é o critério mais adequado ou suficiente? Penso que não. Se o Gaúcho do campo é a referência que forjou nossa matriz cultural, a população urbana também tem o seu papel. Valores como honestidade, honra, denodo, coragem, sinceridade, trabalho, tenacidade, amor pela terra somente se sente se estiver pilchado e montado?
Jorge Rafael 02-08-2012 - 13h58min
Parabenizo o autor pela nobre contribuição e pela repercussão nas redes sociais e peço licença para acrescentar minha singela opinião.
Embora haja uma necessidade de adequar as regras do Movimento Tradicionalista Gaúcho ? MTG e, que essa atualização é comungada por muitos, creio humildemente que o motivo de muitos rio-grandenses não serem de fato gaúchos apesar de o serem de direito, se deve a questões diversas e geralmente ligadas a características da sociedade contemporânea.
sidne Barbosa 02-08-2012 - 01h07min
Verdadeiramente o MTG tem um grande papel neste processo de auto reconhecimento de uma identidade cultural e histórica em uma sociedade e necessita se ?reinventar?. Questões econômicas, geográficas e a própria globalização interferem diretamente nessa identidade pessoal e cultural na maioria das sociedades no mundo. Minha intenção não é esgotar o assunto, nem defender o MTG, muito menos, me opor ao autor, a quem devo a oportunidade de estar falando sobre o tema, mas sugerir que a ?falta? de identidade ou a busca por uma adversa também se deve a fatores distintos ao sugerido.
Sidne Barbosa 02-08-2012 - 01h06min
Assim como o ?homem da terra?, que possivelmente é o mais próximo do gaucho originário, empresários e artistas que vivem dos resquícios desta rica cultura secular (por que não milenar) e profissionais de rodeios crioulos bem como, apreciadores em geral, são os gaúchos de hoje. Com mais ou menos nobreza, com mais ou menos heranças culturais, e na mesma proporção rio-grandenses ou não, os gaúchos se multiplicam mundo a fora e o Rio Grande e os Gaúchos são lugares e ?etnias? globais.
Sidne Barbosa 02-08-2012 - 01h05min
haja a falta de RECONECIMENTO no rio grande, haja a falta de conhecimento no Brasil, mas são patrimônios da humanidade, são legados dos antepassados guerreiros. Bem como a evolução ou não do gaúcho é necessário contemplar questões pertinentes as necessidades ao invés de discutir os padrões da indumentária e a beleza da sempre tão bela flor gaucha, a eterna chinóca. Viva o Rio Grande, viva o gaúcho e viva a cultura crioula do sul.
Sidne Barbosa 02-08-2012 - 01h04min
A muito que me coloco contra a algumas regras levadas a exageros do tipo: se estas em um momento de descontração num churrasco com amigos usando vestes ditas Argentinas e ou Uruguaias que tu não estarias a Gaucho... tremenda bobagem, com certeza, porque não é a veste e sim o espírito Gaúchoooo que importa. As várias formas de fazer churrasco, são outro exemplo. Deixa de ser Gaúcho se o mesmo não for assado em espeto?
Clarel Cruz
Clarel Cruz 01-08-2012 - 21h39min
Parabéns a matéria. Eu discordo em parte quando mesmo que não querendo isto se dá voz e importância a estas pessoas. Nenhum grupo pode e tem o direito de se alvoroçar em representar o gauchismo que é a cultura popular do Rio Grande do Sul e arredores, a verdadeira cultura Gaúcha. Esta nunca foi representada pela burguesia estancieira, só em novelas e séries da rede Globo que isto acontece. Concordo em se manter linhas gerais para não se perder a identidade com os estrangeirismos mas tudo tem um limite. Dar importância e voz a estas pessoas sem foco é que é o grande erro. A cultura do campeiro, do Galpão não está definida pela boina ou pela cor do lenço e sim pela bravura de um povo que dobrou as adversidades e enfrentou e preservou a sua tradição. Os chamados detentores do gauchismo, MTG, e outras tantas siglas não tem o direito e a capacidade em meio a sua reuniões de beberagens de vinhos importados e queijos de renome e odor forte de dizer se sou Gaúcho ou não ou de emitir uma carteirinha para tanto. Como o meu pai sempre me falou, "poste ainda não faz xixi em cachorro" ou será que a ordem da natureza se inverteu e a entropia definida pela Física também não vale mais?? Buenas, se a eles dermos razão e voz teremos que tratar de a quem pertence a cultura e tradição de um povo que sempre esteve ligado a terra e a sua lida. Um forte abraço, André Sayão.
André Sayão 01-08-2012 - 21h18min
Gostaria de parabeniza-lo pelo texto, cujo pensamento partilho. Existe uma necessidade urgente de respeito as peculiaridades do RGS, temos variações culturais de acordo com as regiões do estado, não podemos permitir o engessamento da cultura gaúcha.
Jaire Sutelo 01-08-2012 - 20h32min
É conveniente salientar que a cultura gaúcha difere profundamente das demais culturas de outros Estados da União.
Sempre que se aproxima a data máxima que é o vinte de setembro há comentários negativos.
Tivemos um trecho do Hino Riograndense suprimido, a segunda estrofe foi retirada oficialmente em 1966.
Diz o seguinte:
?Entre nós reviva Atenas para assombro dos tiranos
?Sejamos gregos na glória, e na virtude, romanos?.
Recentemente houve críticas sobre o refrão que diz: ?Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a toda a Terra.
?Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo?.
Seria bom sabermos a quem interessa e qual o interesse.
Agapito Costa 01-08-2012 - 14h14min
Esses trechos do texto "hoje, tornou-se um capricho de gente de classe média ou alta" e esse outro "no fim-de-semana se fantasia conforme o MTG manda e sabe de cor meia-dúzia de coisas de pouca utilidade" e ainda esse outro "Devido ao seu engajamento político a favor dos vencedores"...refletem bem o que é, o que representa esses MTG's...
Patrick Pinho 01-08-2012 - 12h49min
Bela reflexão. É isso aí Felipe! Principalmente considerar a evolução da cultura, abolindo a exploração de animais também nos rodeios e nas comemorações e, principalmente, da alimentação. Pela libertação animal. Ser gaúcho também é isso. E a cultura é tão rica, que a abolição dos animais virá só para engrandecê-la ainda mais.
Milene 01-08-2012 - 11h27min
Muito bom, Felipe! Poucos dias atrás, alguns amigos e eu debatíamos a necessidade de maior aproximação artística com o Uruguai, que fica ali do outro lado, e se assemelha muito mais com o RS do que o Rio de Janeiro, por exemplo.
Esse renovação é necessária e urgente.
Abraços
Rody Cáceres 01-08-2012 - 11h04min