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- 05-09-2011 - 18h51min
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Sobre o monumento ao General Golbery do Couto e Silva

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Foto: Reprodução

Francisco Cougo Jr.*

 

O prefeito e os vereadores do Rio Grande precisaram mexer no vespeiro da memória sobre a última ditadura cívico-militar brasileira (1964-1985) para ganhar projeção nacional. A ideia de homenagear o general Golbery do Couto e Silva, que começou no final de 2009 (quando o projeto foi aprovado quase sem resistências pela Câmara) e passou a ser executada no domingo, 22 de agosto (com o lançamento da pedra fundamental do monumento se pretende erigir em breve, na Praça Tamandaré), correu o Brasil; foi assunto em portais de notícias, no Correio do Povo, no Jornal do Brasil e até na Folha de São Paulo.

Em todas as matérias, o óbvio: homenagear um dos personagens mais influentes da ditadura é uma ideia, no mínimo, absurda.

Golbery do Couto e Silva, rio-grandino de nascimento, faria cem anos em 2011. Ele foi um dos mentores do regime que governou o Brasil com mão de ferro durante 21 anos. Mais do que isso, o “satânico Dr. Go” (como o intitula um importante estudo da socióloga Vânia Assunção) foi um golpista nato, anticomunista e antidemocrata convicto que, a partir dos anos 50, esteve presente em todas as manobras responsáveis pelas instabilidades que abalaram governos democraticamente eleitos pelo povo. Foi assim em 1955, quando Golbery articulou a “Novembrada”, para impedir a posse de Juscelino Kubitchek (e foi preso por isso); em 61, quando inventou a fórmula parlamentarista, esvaziando o poder do presidente João Goulart; em 62, ano em que assumiu o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), responsável pela propaganda anti-Jango; e em 64, quando foi golpista de primeira hora.

A partir da implantação da ditadura, Couto e Silva esteve à frente de alguns dos mais importantes órgãos do regime. Em 1964, transferiu o banco de dados do IPES para o Serviço Nacional de Informações (SNI) e criou a máquina de perseguição e patrulhamento ideológico que emitia informes e pedidos de busca e apreensão em todo o país. Esta estrutura monstruosa criou os subsídios que permitiram a ação dos órgãos de repressão, responsáveis diretos pelo desaparecimento, pela morte e pela tortura de centenas de brasileiros. Tudo isto está documentado, já foi tema de filmes, livros, teses e debates mundo afora. Entretanto, o prefeito do Rio Grande, Fábio Branco, já admitiu que nada sabe sobre o homem que pretende homenagear na principal praça do município. Através de seu chefe de gabinete, Edes Cunha, Branco deu uma das declarações que mais surpreenderam a mídia nacional até agora: “Não vou entrar no mérito de se ele era de ditadura ou não. Eu não era nem nascido” – disse, revoltando entidades de Direitos Humanos em todo o país.

Seguindo a mesma linha, a vereadora Lu Compiani (que também é primeira-dama de Rio Grande), defendeu a criação da homenagem. Segundo sua assessora, Alda Lages, “acreditamos que ele usou o regime político do qual fazia parte para beneficiar sua cidade natal e alavancar seu crescimento”. A vereadora atribui a Golbery – que jamais exerceu qualquer cargo diretamente relacionado à política rio-grandina – uma série de benesses, como a pavimentação de ruas. Verdadeiras ou não, em última instância, o que a edil afirma é que a cidade se beneficiou do poder de influência de Couto e Silva nas esferas federais. Trocando em miúdos, trata-se de uma defesa às nefastas práticas clientelistas, que tanto assolam a política brasileira.

Monumentos – sejam estátuas, bustos ou simples placas – são lugares de memória e devem ser construídos com cautela. Eles são responsáveis por sacramentar materialmente a História, fazendo-nos lembrar do passado. Para que sejam erigidos, deve-se refletir atentamente acerca de seus sentidos e intenções. Contudo, esta reflexão não está acontecendo em relação ao monumento que se pretende construir em memória do pai do serviço de espionagem e perseguição política no Brasil. No momento em que a História do país caminha em busca de memória, verdade e justiça, Rio Grande vai, portanto, na contramão dos fatos, ofendendo as vítimas daqueles anos de chumbo e todos os que condenam os regimes antidemocráticos. O site Petição Pública apresenta um abaixo-assinado de repúdio ao monumento em homenagem ao general Golbery do Couto e Silva em Rio Grande. Já são mais de 800 assinaturas. Cabe aos cidadãos de bem participar desta campanha.

*Historiador


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